15.05.2018
Veja o que mudou na Team Liquid desde o início da Pro League
Após turbulência, equipe se firmou como referência e volta a disputar um título mundial
Gui Caielli

Por Luiz Queiroga


Todo alto investimento em algum ramo provoca altas doses de expectativa. E não foi diferente quando a Team Liquid anunciou que entraria para o cenário competitivo de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege ainda no início do ano.

Apostando na line-up encabeçada por Léo “ziG” Duarte, a organização holandesa não poupou esforços para alavancar o projeto com um único objetivo: se tornar uma das melhores equipes do mundo no R6.

O primeiro desafio foi logo de cara a disputa do Six Invitational, em fevereiro. Acontece que os planos não saíram nada como o planejado, com a Liquid sendo o primeiro time brasileiro a cair no mundial. Foi um golpe, claro, para os pro players, comissão técnica e torcedores. A internet “quebrou”, tanto para o bem como para o mal.

Desde então, o time apostou em algumas mudanças para buscar a reafirmação no cenário. E os frutos estão sendo colhidos de maneira rápida, já que no fechamento desta sétima temporada da Pro League, a Team Liquid é uma das equipes participantes das finais presenciais em Atlantic City, previstas para os dias 19 e 20 de maio.

Veja o que mudou na Team Liquid desde o início da Pro League, e porque é uma organização que chega como uma das favoritas para levar o título mundial.

A peça-chave

A principal mudança que a Liquid sofreu após a queda no Invitational foi a entrada de Paulo “Psk1” Arneiro como quinto player da line-up. Ele foi alçado ao time titular para ocupar a vaga deixada por Lucas “yuuK” Rodrigues - e por mais que publicamente fora anunciado que o novo reforço teria função diferente em relação ao antigo membro, a sombra de yuuK era um complicador para a adaptação de Psk no novo desafio.

Passados dois meses, a aposta virou peça fundamental na mecânica de jogo da Liquid ao decorrer da temporada. “O Psk1 caiu como uma luva no time. Não deve em nenhum aspecto: gameplay, interação e carisma”, avaliou José Victor Gimenez, gerente de comunidade e responsável pelo social media da organização.

No último sábado (12), Paulo veio à público anunciar sobre a efetivação como suporte no time titular. Para quem havia chegado antes mesmo do Six Invitational, como sexto player e colaborador na comissão técnica para questões táticas, o período de testes foi algo muito natural.

“Eu confesso que não esperava ser efetivado, ainda mais porque tinha parado de jogar e estava focado em estudos e jogando outros games. Demorou um pouco para eu pegar o ritmo de jogo dos meninos, mas está dando certo aos poucos”, comentou à reportagem o próprio amapaense.

Se os olhares sempre estão voltados para ziG, astro dos Cavalos, Paulo Arneiro já cravou seu nome na história da organização. “Ele é um tanto tímido. Foi algo muito repentino para ele, mas por encaixar tão bem nesse time, a torcida em pouco tempo o acolheu muito bem”, reforçou Gimenez.

Palavras que puderam ser comprovadas no evento que a equipe realizou em São Paulo, na última sexta-feira (11), para interagir com a torcida. “Bastava ele se descolar do time por um segundo, e posso te garantir que naquele evento ele teria companhia de sobra”, apostou o gerente de comunidade.

Os holofotes na Liquid sempre estiveram voltados pra ziG. Agora, os olhares estão pra Psk1 (Fonte: canal do ziGueira)

O suporte virou reforço não só de tática, mas de carisma. “O público o adora. Ficamos receosos quanto a aceitação no início, mas felizmente tudo caminhou da melhor maneira possível para chegar no nível de apreço que ele tem hoje pelo público.”

Psk1 é conhecido por ser também um grande churrasqueiro. E em caso de título da Team Liquid em Atlantic City, o pro player vê com bons olhos uma mobilização para juntar toda a torcida para comemorar com um baita churrasco. “Seria uma realização e tanta, hein? Queria muito poder fazer isso.”

Psk1 é o churrasqueiro da família Liquid (Foto: acervo pessoal)

Preparo psicológico

O lado emocional foi um fator determinante na queda não só da Liquid, mas de todos os brasileiros na disputa do Six Invitational. Na ocasião, os Cavalos demonstraram um ritmo de jogo travado por conta de ser a primeira vez de alguns atletas num torneio internacional - casos de Thiago “SexyCake” Reis e José “Bullet” Souza.

ziG, da Team Liquid, fez um desabafo e quebrou a internet: muitos elogios, mas também muitas mensagens faltando totalmente com respeito (Foto: reprodução)

“Acho que por ser minha primeira experiência fora, eu não tenha jogado 100%. Mas agora que o time já está completamente focado, todo mundo, inclusive eu, estamos bem preparados e vamos jogar bem soltos”, disse SexyCake à ESL BRASIL.

Bullet também falou sobre seu aprendizado. “Por ter sido meu primeiro mundial, meio que estava seguindo as táticas à risca, sem dar a cara e morrer por besteira. Não consegui jogar o que eu realmente sei. Mas agora, nessa Pro League, estou totalmente diferente do que joguei no Invitational.”

Tão importante quanto a questão tática, a comissão técnica investiu na contratação de um psicólogo para dar respaldo ao lado emocional de toda a line-up, principalmente em momentos decisivos. “Todo o time está com o psicológico diferente, pois estamos fazendo um trabalho com nosso psicólogo para ajudar a equipe”, verificou José Souza.

Com os pro players já experientes por conta do Invitational, agora é a vez dos mais rodados servirem de porto-seguro para Psk1, que vai estrear num torneio longe de nossas fronteiras. “Será meu primeiro campeonato internacional e a única coisa que passa pela minha cabeça é: dar meu máximo e ajudar meu time a ganhar.”

A Team Liquid não conseguiu imprimir seu ritmo de jogo durante o Six Invitational (Foto: reprodução)

Falando em ganhar, há um fator de motivação a mais: a estreia será contra a FNATIC, line-up que defendeu a Mindfreak no Invitational e eliminou os Cavalos ainda na fase de grupos.

“O psicológico tá tranquilo, mas com sede de revanche", comentou o coach André “Sensi” Kaneyasu. Houve mudanças de line, táticas e até mesmo psicológico desde a última vez que enfrentamos eles no Invitational. Estamos muito mais confiantes dessa vez."

Dupla dinâmica

Por trás de uma grande line-up está uma comissão técnica comprometida a entregar o maior valor possível quanto a táticas e estratégias para que o time renda o esperado nas competições.

Apostando alto nessa filosofia, a Team Liquid inovou ao anunciar Adenauer “Silence” Alvarenga como assistente/sexto player, com a missão de agregar ao lado de Sensi.

A nomenclatura é apenas para dar nome ao cargo, como bem pontuou o manager Rafael Queiroz. Mas, na prática, “eles fazem tudo juntos e têm o mesmo peso na parte tática e técnica do time. Apenas durante os torneios e, por mera formalidade, o Sensi seguirá atrás do time”.

Silence (esquerda) e Sensi: dupla tem a missão de construir a melhor comissão técnica de R6 do Brasil - e por que não do mundo? (Foto: acervo pessoal)

A estratégia, já vista na Europa, mas inédita no cenário latino-americano de R6, ainda causa curiosidade, uma vez que não tivemos tempo suficiente para ver o rendimento da Liquid com a dupla dinâmica em ação.

Em termos de Pro League, a nova comissão atuou junta pela primeira vez oficialmente apenas na final regional contra a FaZe Clan, na derrota por 2 a 0. Antes, na partida de classificação às finais presenciais com vitória em cima da Team oNe por 2 a 0, Silence já estava participando da organização, mas ainda de maneira informal.

Já na classificação às finais presenciais, Silence estava presente na Liquid dando pitacos (Vídeo: divulgação)

Mesmo na decisão diante da FaZe, as duas equipes esconderam muito o jogo. Mesmo assim, já foi uma boa oportunidade para que a Liquid colocasse em prática algumas táticas exaustivamente treinadas, como explicou Sensi.

“Com certeza houve táticas teste. Poderíamos ter muito bem feito nosso feijão com arroz, que é o básico do ataque e da defesa, mas por conta de novas táticas, decidimos vê-las se realmente são boas, pois apesar de testar nos treinos e ter dado resultado, ainda não tinha sido testada contra um time tier 1 como a FaZe.”

Para Silence, um dos fatores determinantes para a derrota foi a performance decisiva de Rafael “Mav” Loureiro, que fez 17 kills em 13 rodadas, gerando um K.D de 2,83 - o maior disparado da final, sendo que o segundo melhor foi Leonardo “Astro” Buzzachera, com média “apenas” de 2,0.

“O Mav estava inspirado naquele dia e ele fez uma grande diferença no jogo. A gente criou algumas coisas novas para testar, mas não se encaixaram tão bem em alguns momentos. Foi um bom jogo, mas o destaque vai pro Mav”, concluiu Silence.

As finais presenciais da Pro League serão palco perfeito para vermos o trabalho de Sensi e Silence na telinha.

Liquidez não só no nome

A Team Liquid de hoje está totalmente diferente do que vimos em meio ao Six Invitational: “tudo” mudou, na visão de Sensi. A equipe soube verificar os defeitos e corrigi-los, além de aprimorar as virtudes já existentes.

O primeiro passo foi flexibilizar o ritmo de treinamentos, com uma mudança drástica na rotina do dia-a-dia. Se antes os pro players tinham um treinamento muito rigoroso em termos de horário e tarefas, igual a militares vivendo num quartel, o desafio principal foi “reajustar praticamente toda nossa rotina de treinos”.

A decisão permitiu uma line-up mais solta na GH e, por tabela, nas partidas. Dessa forma, era possível procurar uma liquidez no estilo de jogo para surpreender os adversários.

Momentos descontraídos ficaram mais presentes, sem perder o comprometimento, claro (Foto: acervo pessoal)

A mudança na atmosfera do time ficou bem evidente para Otávio "Retalha" Ceschi, analista da ESL BRASIL e da Ubisoft. “A Liquid mudou o jeito de trabalhar. No Invitational, eles estavam assim: ‘Vamos só pensar no jogo. Não vamos nos divertir’. Agora, eles mudaram alguns pontos pra tentar relaxar isso, trabalhando de outra maneira.”

“Nosso time está bem diferente da Liquid do Invitational”, concordou Bullet, que relembrou o primeiro confronto contra a FaZe Clan - ainda na fase de grupos do regional latino-americano. “Conseguimos bater de frente. Antes, nosso time não conseguia fazer isso e tenho certeza que vamos ainda mais fortes pra essa Pro League.”

 

"O time jogou totalmente solto", manteve o tom no discurso Retalha. "Com nesk livre pelo mapa, eles dominaram a FaZe. Nesse dia também, a FaZe não conseguiu jogar. Ficou muito travada por conta desse estilo livre da Liquid."

A Liquid de hoje é bem diferente daquela que disputou o Invitational, ainda com yuuK (Foto: divulgação)

Se alguns acreditam que o team gaming da Liquid depende muito de André “nesk” Oliveira e Bullet, o discurso não é bem esse nas palavras de SexyCake - um dos que mais participa dos abates gerais do time. “Acho que mesmo os dois sendo eliminados, ainda tem mais três jogadores de alta performance e continua sendo muito difícil pro outro time.”

A chegada de Silence serviu para aprimorar essa filosofia de maior liquidez na execução de táticas. “Agora somos mais atrelados a uma função específica no mapa, mas ao mesmo tempo sem colocar tanto peso na tática”, resumiu Sensi. “Em outras palavras, temos um esboço do que queremos fazer no mapa, mas sem seguir isso à risca.”

Assim, a Liquid se torna uma equipe que cada vez mais procura um estilo inovador de jogo na avaliação de Silence. “Estamos focando mais nesses dias em estratégias novas. Bastante tática nova para chegar ao mundial com um conteúdo novo porque, além das alterações do jogo, o time precisa criar coisas novas.”

O time tem consciência, porém, de que não pode esquecer de jogar o simples. A final regional foi prova disso, como lembrou Sensi. “O que tiramos de aprendizado foi fazer mais o nosso básico e procurar não reinventar a roda.”

Team Liquid: organização que virou referência em estrutura, filosofia e estilo de jogo (Foto: divulgação)

Com postura e filosofia renovadas, a Team Liquid mostra que tem condições de se tornar uma referência em termos táticos no cenário competitivo de R6 não só no Brasil mas como no mundo, mostrando maior ousadia, porém, sem perder sua essência ou se afastar dos conceitos simples. As finais presenciais serão uma grande provação para esse potencial.

Luiz Queiroga é jornalista da ESL BRASIL. Siga-o no Twitter!